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Sábado, 1 de Dezembro de 2007

Games 'ativos' tiram as crianças do sofá

Títulos como 'Dance Dance Revolution' exigem movimentos físicos do jogador.

Pais temem que tempo gasto nos games afete a 'vida social'' das crianças.

Oito anos atrás, eu, como mãe de primeira viagem, jurei que jamais compraria um videogame, certa de que minha filha gastaria as horas de lazer lendo ou brincando na rua.

Outro dia eu me lembrei dessa promessa enquanto estava parada em uma fila de duas horas em frente à loja da Nintendo, em Nova York (EUA). Como centenas de outros pais, tentava conseguir um Nintendo Wii, famoso console de videogames e um dos brinquedos mais populares deste Natal.

Minha transformação de crítica para consumidora de videogames se deve, em grande parte, a algumas pesquisas recentes que mostram que os chamados jogos ativos, como os do Wii, não são como os jogos sedentários da geração Atari. Longe de fazerem as pessoas vegetarem diante da TV, esses jogos obrigam os jogadores a dançar, pular e suar.

Embora o surgimento dos jogos ativos seja, sem dúvida, um progresso, o excesso de horas que as crianças dedicam a eles ainda é motivo de preocupação. A exposição ao conteúdo violento dos games é associada à agressão e ao comportamento anti-social, e já ficou comprovado que o hábito de jogar exerce um impacto pequeno, porém mensurável, sobre o tempo que algumas crianças passam lendo e fazendo dever de casa.

Mudança de hábito

Foto: Divulgação
As setas de 'Dance Dance Revolution' indicam como o jogador deve dançar

Os videogames ativos não substituem a prática de esportes e as brincadeiras de rua, mas diversos estudos revelam que os jogos podem aumentar significativamente o nível de atividade de uma criança nas brincadeiras dentro de casa.

Em um estudo realizado na Nova Zelândia, pesquisadores que estudam o uso de jogos por 21 crianças demonstraram que os games ativos produzem quase o mesmo grau de atividade do que caminhar, pular e correr, segundo relatório publicado em agosto no Pediatric Exercise Science.

Alguns desses jogos promovem a queima de mais calorias do que atividades como caminhar na esteira, conforme relatório da American Academy of Pediatrics publicado em 2006 em seu periódico médico.

Nesse estudo, pesquisadores da Mayo Clinic, em Rochester, Minnesota (EUA), mediram quantas calorias as crianças queimavam em 15 minutos assistindo à televisão, caminhando na esteira, jogando o videogame tradicional sentado (“Extreme Skate Adventure”, da Disney) ou jogando dois jogos ativos. Um desses jogos, “Dance Dance Revolution”, exige que os jogadores sigam passos usando um tapete de dança, enquanto “Jellyfish Jam”, do Nicktoons Movin, usa o Sony EyeToy, que reconhece movimentos do corpo.

O EyeToy produziu a mesma queima de calorias da caminhada na esteira, e o pessoal no tapete de dança queimou ainda mais calorias. A equipe da Mayo Clinic está realizando um estudo semelhante sobre o Nintendo Wii.

Fora do sofá

Foto: Divulgação
Em 'Wii Sports', o jogador deve simular ações da vida real em diferentes modalidades

Lorraine Lanningham-Foster, professora da Mayo Clinic, sabe que a pesquisa sobre videogames ativos demorará a obter credibilidade. "Há pessoas que acham, não importa como você reformule, que são videogames parados e que as crianças não deveriam ficar sentadas na frente da TV ou do computador para jogá-los", disse Lanningham-Foster. "Mas elas não ficam sentadas. Essa é toda a novidade sobre esses jogos, as crianças se mexem."

A principal preocupação de muitos pais não é se as crianças estão fazendo exercícios suficientes, mas se os videogames interferem ou não nas verdadeiras atividades esportivas e no tempo gasto com amigos e com a família ou ainda se distraem as crianças dos estudos.

Pesquisadores da Universidade do Texas, em Austin, analisaram como cerca de 1.500 pré-adolescentes e adolescentes, com idades entre 10 e 19 anos, gastam o tempo, e compararam os hábitos de jogadores de videogame com os de não jogadores. (Os dados foram coletados entre 2002 e 2003, antes da popularização dos novos jogos ativos.)

De modo geral, não se constatou diferenças consideráveis entre os jogadores e não jogadores quanto ao tempo gasto com os pais e amigos, em esportes ou em outras atividades ativas de lazer, segundo o relatório publicado em julho no The Archives of Pediatrics and Adolescent Medicine.

Entre as meninas, o videogame não exerceu nenhum efeito no tempo de leitura. No entanto, no caso dos meninos, para cada hora gasta jogando videogame durante a semana de aulas, o menino lia apenas dois minutos a menos do que um garoto que não jogava videogames. Obviamente, os meninos que não jogavam, de qualquer forma, também não liam muito, gastando apenas oito minutos por dia lendo livros.

Dever de casa

Foto: Divulgação
A câmera 'Eye Toy' reconhece os movimentos do jogador em jogos do PlayStation 3

Os videogames não afetaram o tempo gasto com dever de casa dos meninos. Mas as meninas que jogavam videogames durante a semana passavam 13 minutos a menos fazendo lição de casa, representando cerca de um terço a menos do tempo em relação às meninas que não jogavam. Contudo, o significado desse dado não é claro, já que aqueles que sempre vão bem e tiram boas notas muitas vezes também passam menos tempo fazendo o dever.

Segundo os pesquisadores, é preciso que se façam muitos outros estudos para compreender que tipo de criança joga videogames e como o tempo gasto com esses jogos afeta outros setores da vida. "A idéia comum é que, se as crianças não estivessem assistindo à TV e jogando videogames, estariam lendo ou correndo em um campo de futebol", afirma Elizabeth A. Vandewater, co-autora do estudo do Texas que hoje é analista de pesquisa sênior em saúde no Research Triangle Institute, grupo de ciências sociais da Carolina do Norte. "Não é uma troca equilibrada."

A American Academy of Pediatrics afirma que crianças com menos de 3 anos não devem ficar em frente à TV ou aos videogames. Além disso, os pais que compram os videogames ativos não podem deixar de garantir que a dose total diária de uso do computador, televisão, vídeos e jogos da criança não ultrapasse o recomendado pela associação, que é de no máximo duas horas por dia.

"Enquanto pais, é preciso controlar e monitorar o que as crianças estão fazendo", disse Lanningham-Foster. "Tudo é uma questão de estabelecer limites."

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